Por que "achar a peça" não é uma busca... O Agente Vendedor
Pediram uma "busca melhor" pra achar peças de compressor. Só que a peça precisa ser compatível com aquele número de série — e o cliente não quer o item, quer o kit que resolve o problema todo. Então botei uma IA pra casar as duas coisas.
Todo projeto começa com alguém pedindo a coisa parecida com a certa. Aqui o pedido foi “queria uma busca melhor pra achar as peças”. Um campo de texto, o vendedor digita, aparece a peça. Parece um WHERE nome ILIKE '%...%' e um domingo à tarde.
O problema não é que a busca seja ruim. É que “achar a peça” nesse contexto não é uma busca — são dois cruzamentos que um campo de texto não faz sozinho.
O primeiro cruzamento é de compatibilidade. Uma peça não é certa no vácuo — ela é certa para um compressor de um número de série específico. O mesmo “filtro de óleo” pode existir em cinco versões, e só uma serve naquele equipamento. Buscar por nome devolve as cinco; o vendedor precisa da que encaixa naquele número de série e naquela aplicação.
Então achar não é filtrar por texto, é casar peça × compressor × número de série × aplicação. Uma peça certa pro compressor errado é uma venda errada — o cliente volta irritado e a troca vira prejuízo. Esse é o tipo de regra que mora nos dados e no raciocínio, não numa cláusula LIKE.
O segundo cruzamento é o que dá nome ao projeto. O vendedor não está ali só pra entregar o item que o cliente pediu; está pra resolver o problema que trouxe o cliente. E quase sempre a peça pedida é a ponta de um conjunto.
Exemplo concreto: o cliente pede um filtro de óleo. Só que esse filtro está descrito no kit de revisão de 2000 horas daquele compressor. Se o cara está fazendo essa revisão, ele não precisa de um filtro — ele precisa de tudo que aquela revisão pede. O agente faz esse casamento: identifica a peça, percebe de qual kit/receita ela faz parte e já mostra ao vendedor o conjunto inteiro que o cliente vai precisar. Uma venda melhor pro negócio e um cliente que não volta em duas semanas por causa de um item que ficou de fora.
É essa lógica que separa o “campo de busca” do Agente Vendedor. Busca devolve o item que você digitou. O agente entende por que você está procurando e monta a solução em volta da peça — seja um kit, no caso corretivo (quebrou, troca agora), seja a receita de uma revisão, no caso preventivo, como a de 2000 horas.

Junte os dois cruzamentos e some a conversa com o vendedor: você tem três raciocínios que competem entre si — descobrir qual compressor, descobrir qual peça aplicável a ele, e conduzir o atendimento até o kit certo. Empilhar isso num prompt só deixa o agente medíocre nas três coisas.
Quebrei em três. Um agente principal cuida da conversa, do formato e da parte comercial (o casamento com kit/receita). Abaixo dele, dois subagentes especializados: um só pra detectar o compressor, outro só pra detectar a peça aplicável. O principal orquestra, os subagentes investigam.
Duas regras seguram o projeto. A primeira: o agente afunila até sobrar uma única peça — enquanto houver mais de uma candidata, ele pergunta o que diferencia (modelo, aplicação, número de série) em vez de despejar uma lista. A segunda: ele consulta o banco a cada mensagem, nunca responde de memória. Estoque muda, peça sai de linha, e um agente que decora o catálogo vende o que não existe.
Por trás, um Postgres com as tabelas que a própria operação já pensava: peça, compressor, número de série, aplicação, receita e kit. Modelar em cima desse vocabulário — e não do meu — foi o que deixou os subagentes traduzirem “tô fazendo a revisão de 2000 horas” numa lista de peças aplicáveis e casadas. O n8n orquestra o fluxo e o WebHook é a porta de entrada das mensagens.
Quando o pedido é “uma busca melhor”, vale desconfiar do “busca”. Às vezes a palavra certa está escondendo dois problemas que texto não resolve: compatibilidade (a peça tem que servir naquele equipamento) e composição (o que o cliente precisa raramente é um item só). Foi o caso aqui.
Um agente não é um campo de busca com esteroides. É a diferença entre te devolver uma lista e te entregar o conjunto que resolve o problema — compatível com o compressor certo e casado com o kit certo. E, pra quem constrói, a lição de arquitetura foi separar os raciocínios: um principal que orquestra, subagentes que investigam, e o banco consultado a cada passo pra nunca vender fumaça.
Primeiro de uma série sobre o Agente Vendedor. No próximo eu abro os subagentes por dentro — como o principal decide quando chamar cada um e o que acontece quando a detecção do compressor e a da peça discordam.